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Células
da esperança
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O
médico que eu tinha uma doença sem cura", conta
o eletricista Raimundo Silva.
"Um dos médicos dizia que eu estava em fase terminal
de vida", lembra o administrador de empresas Sérgio
Soares.
"Quando
eu descobri que tinha diabetes, chorei, porque a doença é
para sempre", diz o estudante Miguel Bretas. |
Em
busca da cura ou apenas de uma chance, estes brasileiros estão
escrevendo um fascinante capítulo da história da medicina.
São os primeiros a testar um tratamento novo com células
tronco. Estão vivendo a experiência de superar o medo
para ser parte do futuro.
Uma
família inteira na torcida. Toda vez que Miguel entra na
quadra de basquete tem apoio entusiasmado de quem está na
platéia: pai, mãe, irmã e primos, que há
oito meses passaram a torcer por um outro tipo de vitória.
Miguel teria que derrotar não o time adversário, mas
uma doença que apareceu de repente.
O
ala pivô do time de Itabira, em Minas Gerais, foi um mineirinho
gorducho que adorava doces e sempre teve boa saúde. No ano
passado, aos 15 anos, o susto: sede exagerada e idas ao banheiro
toda hora. Miguel perdeu seis quilos em uma semana. O diagnóstico
veio rápido: diabetes juvenil, doença que destrói
as células do pâncreas, que produzem insulina.
"Meu
pai e minha mãe eram diabéticos. Meu pai amputou um
dedo, uma perna e ficou cego", conta Agenor Bretas, pai de
Miguel.
"Falei
com o Agenor que eu ia descobrir uma solução para
o diabetes. Eu não queria meu filho diabético. Eu
ia em qualquer lugar do mundo atrás de um tratamento",
lembra Maria da Conceição Andrade, mãe de Miguel.
Maria
da Conceição não precisou sair do Brasil, e
Raimundo Silva também não. O maranhense que ganha
a vida desafiando perigos como eletricista industrial viveu momentos
de terror quando perdeu as forças de uma hora para outra.
"Minha
resistência era zero”, lembra Raimundo.
A
doença que também atingiu os rins e o fígado
de Raimundo é o lupus. O sistema de defesa deixa de proteger
contra doenças e passa a atacar o próprio organismo.
O lupus de Raimundo era agressivo e resistente a todos os tratamentos
conhecidos.
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"Eu
sabia que eu tinha poucas chances de sair da cama e ter a minha vida
de volta", diz o eletricista. "Daí eles me apresentaram
a proposta: um tratamento nos Estados Unidos. Existia uma possibilidade
de dar certo, só que nunca fora feito no Brasil. Disseram que
não tinham nenhum tipo de experiência com o que iam fazer.
Se eu estivesse disposto a aceitar, poderia fazer.”
Ser a cobaia humana de um novo tratamento não é uma
decisão fácil. Entregar o filho para a experiência
é mais difícil ainda. |
"Em
um sábado, a médica que é minha vizinha falou
que se fosse filho dela, ela faria. No domingo, minha irmã
disse que o filho dela não seria cobaia disso. Foi uma decisão
muito difícil”, comenta a mãe de Miguel.
"Quando
eu fui, só dois pacientes tinham feito o tratamento. Um continuou
a usar insulina e o outro não. Então, era 50% de chance",
diz Miguel.
O
novo tratamento para doenças do sistema imunológico,
como lupus e diabetes juvenil chegou ao Brasil pelas mãos
do cientista Júlio César Voltarelli, que vive cercado
de informações novas e que é também
médico do Hospital das Clínicas de Ribeirão
Preto, em São Paulo. Durante um ano e meio ele estudou, nos
Estados Unidos, a técnica de destruir as doenças e
depois usar as células-tronco para criar novas defesas, um
sistema imune saudável.
"O
que nós fazemos é destruir esse sistema imune alterado
e dar uma chance para a célula-tronco repopular o organismo
com o sistema imune que é novamente tolerante. Parece uma
mágica, mas acontece. O indivíduo volta a ter o sistema
imune semelhante ao que ele tinha quando nasceu e que não
era auto-agressivo", explica o pesquisador.
As
células que parecem fazer mágica são as células-tronco.
Estudadas nos laboratórios do mundo inteiro, elas têm
alta capacidade de se multiplicar e de dar origem a diferentes tipos
de células. Por isso, também são chamadas de
coringas pelos cientistas, que estão empolgados.
"Eu
acho que nós estamos em uma revolução. Eu poderia
comparar isso à descoberta dos antibióticos, ao início
dos transplantes”, comenta a pesquisadora Mayana Zatz, da
Universidade de São Paulo (USP).
A
explicação da capacidade das células-tronco
está no próprio nome. Do tronco de uma árvore,
nascem galhos, folhas, flores e frutos. As células-tronco
também dão origem a outros tipos de célula,
que formam cabelo, pele, sangue, coração. Versáteis,
elas estão presentes, principalmente, nas primeiras células
do embrião, no cordão umbilical e na medula óssea,
o popular tutano.
Tirar
as células-tronco da medula é trabalho de uma máquina.
Com a ajuda de remédios, elas caem na corrente sanguínea
e são separadas para mudar o destino de quem já não
tinha esperança.
São
células brancas, depositadas no meio de uma bolsa de sangue,
que estão sendo usadas para tratar diabetes, lupus e esclerose
múltipla, a doença progressiva que tirou os melhores
anos da vida do administrador de empresas Sérgio Soares.
"Naquela
época, ela me tirou tudo aquilo que eu sonhava: crescer profissionalmente,
ao lado da minha família, participar de tudo o que um pai
normal participa com um filho ou um esposo com uma esposa”,
diz ele.
Na
forma de surtos inflamatórios, a esclerose múltipla
vai enfraquecendo os músculos, ataca a visão e o cérebro.
Sérgio já não saía da cama, mal conseguia
falar e não tinha forças nem para comer quando também
decidiu entregar a vida nas mãos da ciência.
"Deixaram
bem claro que o tratamento não era a cura. Ele só
iria estagnar minha doença para me dar uma qualidade de vida
melhor. E o que a doença lesou no meu corpo eu jamais iria
recuperar", conta Sérgio.
Sérgio
tirou fotos durante a internação. Miguel também
registrou o tratamento inédito. E Raimundo teve cada etapa
no hospital acompanhada pelas câmeras de TV.
"As
células saudáveis vão ficar protegidas para
serem reimplantadas no paciente depois da quimioterapia”,
anunciou uma reportagem da EPTV, em Ribeirão Preto.
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Quimioterapia, o temido tratamento contra o câncer, é
também a primeira etapa do tratamento com as células-tronco.
No caso das doenças auto-imunes, é preciso ir ainda
mais longe: destruir a doença e também todo o sistema
imunológico. O paciente sem defesa contra doenças
e infecções fica mais frágil que um bebê.
Raimundo sofreu e Miguel quase morreu.
"O intervalo das febres foi ficando menor”, conta a mãe
de Miguel. “Um dia ele disse que ia ao banheiro. Eu achei
que ele estava bem e o deixei ir. Quando ele abriu a porta, caiu
em cima de mim. Nessa hora, eu pensei que ia perdê-lo."
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“Eu
pensei que, se pudesse voltar atrás, eu voltaria”,
diz o pai do jovem.
Mas
quando se entra em uma experiência como essa, só é
possível seguir em frente. Por isso, são poucos os
pacientes selecionados para a pesquisa. Apenas 44 pessoas em nove
hospitais do país foram submetidas ao novo tratamento. Destas,
nove morreram por causa da quimioterapia, não pelo uso das
células-tronco.
"A
célula-tronco é segura. Mas o procedimento em si,
não. Na realidade, a célula-tronco não conseguiu
resgatar o sistema imunológico a tempo de evitar que os pacientes
morressem", diz o pesquisador Júlio César Voltarelli.
A
esperança está na recuperação alcançada
pela maioria dos pacientes. Miguel superou as infecções,
dois dias depois de receber as células-tronco ele parou de
usar insulina, remédio que garantia a sobrevivência
e recheava a geladeira de casa. "A seringa está até
com saudade de tanto ficar parada", brinca Miguel.
Ainda
é preciso cuidado, medir as taxas de glicose no sangue a
cada refeição e controlar a alimentação
como papai manda. "Sempre regular a boca", alerta Agenor.
Os
médicos ainda não falam em cura. É preciso
esperar para saber qual foi exatamente a ação das
células-tronco e quanto tempo dura o efeito do tratamento.
Mas uma coisa é certa: Miguel já é parte da
história da medicina.
"Em
outras doenças, nós estamos copiando os médicos
do exterior, aprendendo com eles. Mas para o diabetes, eles vão
ter que aprender com a gente", ressalta o pesquisador Júlio
César Voltarelli.
Sérgio
Soares, o homem que hoje atravessa a piscina em sessões de
fisioterapia saboreou a primeira conquista ainda no hospital: "Ficar
de pé de novo. Depois de oito anos de luta, voltar a ficar
em pé é gostoso".
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O
esforço para caminhar ainda é grande, mas, um ano e
sete meses depois do transplante de células-tronco, Sérgio
tem razões para estar cheio de esperança. "Hoje
eu tenho o prazer de pegar o alimento no prato e colocar na minha
boca, coisa que eu não fazia mais. Eu não conseguia
levantar o talher. E hoje eu sinto essa força, sinto cada vez
mais o meu corpo forte", diz. |
Ele
só pensa em aproveitar cada momento, como as brincadeiras
com o filho. As dúvidas ficam para a ciência.
"Até
hoje os médicos ainda não sabem o que está
acontecendo com meu corpo. Mas eu sei que eles vão entender
melhor e trazer mais pessoas que são portadoras de esclerose
múltipla para fazer esse transplante", comenta Sérgio.
Se
os médicos têm perguntas a responder, os amigos de
Raimundo também tem as deles.
"Alguns
perguntam como eu fiquei doente. Eu digo que não sei. Outros
perguntam como eu estou curado. E eu também respondo que
não sei. Assim como a doença, a minha cura veio do
meu próprio organismo. Isso é uma coisa fabulosa”,
ressalta Raimundo.
Há
três anos, quando Raimundo teve alta depois do transplante
de células-tronco, a mulher dele, Gardênia Silva, ganhou
de volta o sorriso do marido. "Agora ela está voltando
a ser o que ele era antes, bonito", comentou ela na ocasião.
Sem
um único remédio para tomar, Raimundo é um
novo homem, capaz de ir longe, como a inteligência humana,
que ele aprendeu a admirar. “A vida não tem limites.
E a inteligência também não. Agora eu tenho
uma grande dívida com a ciência. A ciência me
deu a vida de volta, me deu esperança", diz ele.
Vida
nova para Vanessa |
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Três
quilos e meio de peso e nome de anjo. A chegada de Gabriel encheu
a família de alegria e vai permitir que algum dia, em algum
lugar, alguém possa sorrir também. A mãe dele
doou o sangue do cordão umbilical. "É algo que
ia para o baldinho todo dia, como a gente diz na nossa linguagem.
Ia para o lixo", conta o geneticista Carlos Alberto Moreira Filho.
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Agora
o destino é mais nobre. Em São Paulo, Ribeirão
Preto, Campinas e Rio de Janeiro, já se coleta, congela e
guarda o precioso sangue dos cordões umbilicais, sangue rico
em células-tronco. É a rede Brasilcord, bancos públicos
de cordão que, com o aval dos cientistas, foram criados para
substituir os bancos privados onde pais pagavam para congelar cordões
só para seus filhos.
"As
células do próprio indivíduo não têm
efeito terapêutico no caso da leucemia. Então, não
adianta guardar as células de cordão para o caso de
o indivíduo ter leucemia. Depois, isso fere o princípio
da solidariedade sobre o qual se baseia qualquer sociedade",
comenta o geneticista.
Amiguinhos
que escrevem conhecem bem o sofrimento de uma pequena bailarina
de Jaú, no interior de São Paulo. Em seus 9 anos de
vida, Vanessa Canal desfrutou momentos de beleza e alegria nos palcos
da escola. Mas desde os 3 anos Vanessa trava uma grande batalha
para continuar viva. "Eu fiquei com leucemia", conta a
menina.
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Vanessa
é tão tímida que foi preciso sair da sala e ligar
de um celular para conseguir arrancar algumas palavras dela: "Eu
gosto de adesivos, jogar videogame e nadar, mas eu não posso
nadar." Não pode nadar, nem tomar sol. Restrições
de quem passou por três tratamentos de quimioterapia. A leucemia
não deu trégua.
"O organismo dela mostrou que a quimioterapia não conseguiu
eliminar 100% da doença. Ela eliminava por um tempo, mas a
doença voltava", conta Mary Canal, mãe de Vanessa.
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A
única chance de Vanessa era um transplante de medula, mas
nem a irmã nem os pais eram compatíveis. Nos bancos
de medula, também não encontraram doador com sangue
quase igual ao dela, como exige esse tipo de transplante.
"É
difícil achar um doador. Segundo nos falaram, é como
ganhar na Mega-Sena com 12 números", diz Mary.
A
cada ano, cerca de 3 mil pessoas no Brasil vivem o drama da procura
por um doador de medula. Cerca de 1,7 mil não encontram e
perdem a batalha pela vida. Batalha que agora ganha novas possibilidades
de vitória. Simples de ser conseguido e menos exigente -
mais fácil de ser compatível -, o sangue do cordão
umbilical guardado nos bancos substitui, com vantagem, o transplante
de medula óssea.
"Hoje,
no Japão, metade dos transplantes de medula não são
mais transplantes de medula – são transplantes com
célula de cordão umbilical. Esse é o futuro",
anuncia o geneticista Carlos Alberto.
O
banco do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro,
já tem no estoque o sangue de 3 mil cordões. O cálculo
é de que, com 12 mil, qualquer brasileiro que precise encontre
a salvação nos bancos públicos do Brasil. Não
será mais preciso comprar de outros países como se
fazia.
"O
banco daqui, apesar de pequeno, já forneceu cordão
para São Paulo. Um deles foi encaminhado para a cidade de
Jaú", revela o médico Luis Fernando Bouzas, do
Centro de Transplante de Medula Óssea do Inca.
Em
Jaú, a chegada do cordão era a vida entrando em casa.
"No dia que ele me ligou e falou que acharam um cordão
com 100% de compatibilidade para a Vanessa eu não conseguia
nem falar", lembra a mãe da menina.
Em
um hospital de Jaú, Vanessa recebeu as células-tronco
do cordão enviado do Rio de Janeiro. O momento foi registrado
em foto. Uma experiência que não se esquece.
"Eu
olhava um saquinho tão pequenininho, como se fosse uma transfusão
de sangue. Ali dentro estava a vida da minha filha. Aquilo teria
que entrar no organismo e gerar novas células. Pensei: ‘será
que vai dar certo?’. As chances de sobrevivência ao
transplante eram de 30% a 50%. É muito pouco quando se trata
da vida de um filho", diz Mary.
Mas a espera não foi longa. Em poucos dias, as células-tronco
se multiplicaram e começaram a produzir sangue novo e saudável.
Três meses depois, Vanessa ainda toma remédio para
evitar a rejeição, mas está bem. Os cabelos
vão voltar a crescer, a alegria vai sendo recuperada e ela
está quase pronta para fazer o que mais gosta: dançar.
"Se não fosse esse transplante, eu não sei se
ela estaria hoje com a gente. Eu acho que todo mundo deve conhecer
esse processo de doação, que não causa dor
nenhuma, problema nenhum para o bebê nem para mãe,
e que salva uma vida", ressalta a mãe de Vanessa.
Para
o tratamento da leucemia e de muitas outras doenças, o sangue
de cordão umbilical é uma riqueza que o mundo já
sabe que pode guardar e trocar para o bem de todos.
"Para
muitas pessoas, estas células já se constituem em
um tesouro, porque são salvadoras, proporcionam um tratamento.
Se não houvesse essa possibilidade, essas pessoas não
fariam um transplante", avalia o médico do do Centro
de Transplante de Medula Óssea do Inca.
Cura
passo a passo |
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“Na
penúltima volta, o segundo colocado me ultrapassou. Eu tentei
recuperar no salto. Eu tinha 50% de chance de cair na frente dele
e 50% de chance de acontecer qualquer outra coisa e eu não
conseguir meu objetivo", conta o estudante de Direito Paulo Polido.
Foi o último salto de Paulo. O tombo fatal deixou paraplégico
o jovem aventureiro.
Outra história, outro acidente – desta vez, de carro
– e o mesmo drama. "Peguei um desvio errado e segui na
contramão. Quando eu vi, tinha uma luz muito forte e o carro
capotou", lembra Sérgio Guilhem Rosa. |
O
jovem de 18 anos que queria ser advogado teve os sonhos interrompidos.
"Eu não sentia nada. Foi como se tivesse passado uma
guilhotina e separado metade para um lado e metade para o outro",
lembra Sérgio.
O
pai de Sérgio, o médico radiologista Luis Carlos Rosa,
foi o primeiro a ver os exames que selariam o destino do filho.
"Já na primeira radiografia convencional eu vi que realmente
era alguma coisa sem solução", diz ele.
O
motociclista Paulo também ouviu dos médicos a notícia
terrível. "O primeiro diagnóstico foi de que
eu não ia sair da cadeira", conta ele.
Um
limite para a medicina. A medula espinhal é uma complexa
estrutura de ossos, nervos e artérias que só obedece
aos comandos do cérebro quando está intacta, inteira.
Devolver
os movimentos, fazer andar quem estava na cama ou na cadeira de
rodas. Esses sempre foram os grandes sonhos de médicos e
pacientes. Sonhos ainda distantes, mas que começam a ganhar
contornos de realidade. Com uso das células-tronco, o milagre
da ciência já não parece tão impossível.
Paulo
e Sérgio fazem parte de um grupo de 30 pacientes com lesão
de medula espinhal que testam o tratamento com células-tronco
no Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Elas foram retiradas da medula óssea dos próprios
pacientes. Os médicos já sabem que essas células
têm uma vocação para resolver problemas como
inflamações. Por isso, eles provocam uma irritação
na parte lesada da coluna. A idéia é atrair para lá
as células-tronco que serão injetadas.
"A
injeção é feita na artéria que manda
sangue para a medula no local da lesão. Essa injeção
é feita com células-tronco. Exatamente o que ocorre,
não se sabe. Mas o fato é que em 60% dos pacientes
a gente tem observado recuperação dessa comunicação",
revela o ortopedista Tarcísio de Barros Filho, do Hospital
das Clínicas.
Um
ano e meio depois da injeção de células-tronco,
sensações esquecidas foram comemoradas por Sérgio.
"Um dia eu estava tomando banho e estava frio em casa. Eu chamei
minha mãe e pedi para ela pegar um pano porque o chão
onde fica a cadeira de banho, uma parte de ferro, estava me incomodando.
Estava frio. Foi o primeiro indício de que alguma coisa estava
acontecendo de diferente", recorda Sérgio.
Paulo
começou a sentir os efeitos das células-tronco ainda
mais rápido: seis meses depois da infusão. "A
sensibilidade, que estava mais ou menos na altura acima do joelho
está quase no pé da minha perna direita. Antes, alguém
pegava e eu não sentia nada”, diz Paulo.
Mais
do que sentir, mover. Os primeiros resultados animaram os pacientes
a tentar o impossível.
"Eu
estava deitado na cama e ‘encanei’ de ficar tentando
mexer o pé. Dali a pouco, eu olhei e vi que tinha esboço
de alguma coisa”, conta Sérgio.
"Eu
fiquei muito emocionada porque fazia dez anos que ele não
mexia nada, absolutamente nada", comemora Deni Gulhem Rosa,
mãe de Sérgio.
A
alegria precisou de provas para ter validade científica.
Os pacientes tiveram que fazer um exame que provoca pequenos choques
nas pernas para saber se os estímulos estão chegando
ao cérebro. As linhas que indicam isso, e que antes eram
praticamente retas, já mostram movimento. O resultado é
quase igual ao de uma pessoa normal.
Será
que esses resultados vão durar para sempre? Será que
os pacientes vão recuperar os movimentos? Os médicos
ainda precisam observar muito para saber, mas a vida de quem aposta
na ciência melhorou. Alguns pacientes já controlam
as idas ao banheiro. Paulo tem firmeza para trocar a cadeira de
rodas pelo andador nos dias de trabalho no escritório, e
as noites são de amor e festa para o estudante de direito.
Sérgio
também não espera de braços cruzados. Além
da fisioterapia, faz caminhadas cada vez mais firmes com o andador,
fez concurso para ser procurador da Receita Federal e está
otimista com o avanço da ciência.
"O
que vier para mim está bom. Então, eu torço
para que outras pessoas realmente consigam. Quem não quer
ver um Herbert Vianna subir no palco normal novamente?", pergunta
Sérgio
Batalha
política e religiosa |
O
músico Herbert Vianna, portadores de doenças graves
e a cientista que deixou o laboratório para ir ao Congresso
Nacional em Brasília. Todos mobilizados pela aprovação
da Lei de Biossegurança, que já passou pelo Senado
e agora depende da votação dos deputados.
É a lei que vai determinar se os cientistas brasileiros poderão
usar nas pesquisas as potentes células embrionárias.
Hoje eles só podem trabalhar com as chamadas células-tronco
adultas presentes no cordão umbilical e na medula, mas é
pouco perto de onde se pode chegar.
"As
células-tronco de cordão umbilical, classificadas
como adultas, são limitas. Elas não conseguem fabricar
todos os tecidos do corpo, enquanto que as células-tronco
embrionárias, essas sim, conseguem fabricar todos os tecidos
do nosso corpo. A gente quer que essas células regenerem
a medula de uma pessoa que sofreu lesão em um acidente, por
exemplo, para ela voltar a andar”, diz a pesquisadora Mayana
Zatz, da Universidade de São Paulo (USP).
As
células-tronco capazes de fabricar tecidos como músculos,
ossos e órgãos inteiros estão no centro de
uma batalha política e religiosa. Os cientistas querem usar
nas pesquisas células de embriões congeladas nas clínicas
de fertilização. Não é o feto, mas o
minúsculo aglomerado de células que sobraram do tratamento
feito por casais para ter filhos. A Igreja Católica é
contra. Outras religiões apóiam.
"Não
podemos privar a sociedade das inúmeras possibilidades terapêuticas
que o embrião representa a pretexto de salvá-la",
defende o rabino Henrry Sobel, da Congregação Israelita
Paulista. “O embrião é um ser vivo em potencial.”
"As
pesquisas com células-tronco embrionárias têm
esse tipo de implicação: a destruição
do embrião. E cada embrião humano é uma vida
humana. Destruir um embrião é destruir uma vida humana.
Por isso a igreja é contra", justifica Dalton Ramos,
da Comissão de Bioética da CNBB.
"Eu
acho antiético não poder ajudar pessoas com doenças
degenerativas, adultos e crianças que estão morrendo.
Acho completamente absurda a comparação de um embrião
congelado com uma criança que está morrendo",
diz a pesquisadora Mayana Zatz.
Herança
de filho para mãe
A
mãe dá a vida ao filho. Em troca, o filho dá
mais saúde à mãe. A novidade é fascinante:
a mulher grávida recebe células-tronco do feto. E
essas células são usadas pelo organismo da mãe
para recuperar órgãos e curar doenças. Quem
descobriu essa nova rota no mapa da vida foi a médica Diana
Bianchi, pesquisadora do Centro Médico da Universidade Tufts,
em Boston, nos Estados Unidos. Ela identificou, por acaso, a presença
das células fetais, ao examinar mães, grávidas
e até mulheres que tinham feito abortos.
O caso mais impressionante foi o de uma mulher com hepatite C que
teve o fígado inteiramente recuperado com células-tronco,
que só podem ter vindo de um feto abortado. As células
que atuaram no processo de regeneração eram masculinas,
e o feto era de um menino.
No
laboratório, a prova final: usando camundongos, doutora Bianchi
marcou as células fetais com material fluorescente. Elas
apareceram em verde brilhante. Uma fêmea grávida feriu
o olho. Imediatamente, as células-tronco do feto afluíram
para o local da ferida e substituíram o tecido atingido.
Parece milagre, mas é um fenômeno que acaba de ser
descoberto pela medicina. As mães levam uma grande vantagem
porque recebem dos filhos uma reserva extra de saúde.
Doutora
Bainchi está tentando isolar as células fetais retiradas
das mães para ver se é possível, a partir delas,
criar novos tratamentos. Mas nos Estados Unidos, as pesquisas mais
promissoras se concentram nas células extraídas de
embriões humanos.
Mary
Bunzel luta para salvar a vida do filho. Eli, tem 14 anos. Aos 11
anos, descobriu que é diabético do Tipo 1, a diabetes
que surge na adolescência e que, se não for controlada,
pode matar. Eli leva uma vida quase normal, é bom estudante
e pratica esportes. No quarto, ele tem vários troféus
de beisebol.
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A
maior diferença entre Eli e a maioria dos diabéticos
se revela em uma foto: um encontro com o presidente George W. Bush,
na Casa Branca, quando Eli tinha 12 anos. É que o menino se
destaca como porta-voz da Fundação de Pesquisa da Diabetes
Juvenil e foi a Washington para lutar por uma causa: a pesquisa com
células-tronco retiradas de embriões humanos para curar
não só o diabetes, mas muitas outras doenças.
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Pressionado
por grupos religiosos, há três anos o presidente Bush
limitou o financiamento pelo governo federal a um pequeno número
de células-tronco retiradas de embriões. Um laboratório
na Universidade de Harvard fornece a maior parte das células-tronco
aprovadas pelo governo. No local, cientistas planejam fazer o que
há de mais polêmico na área: a clonagem de embriões.
O
diretor do centro, Robert Jennings, conta que o chefe do laboratório,
Douglas Melton, a maior autoridade americana no assunto, tem duas
filhas com diabetes e, por isso, está pessoalmente envolvido
na pesquisa. O objetivo de Melton é clonar células
para produzir embriões e, a partir deles, células-tronco.
Jennings
insiste que só as células-tronco retiradas de embriões
podem ser levadas a produzir qualquer tipo de órgão,
ao contrário das células maduras, que não têm
o mesmo potencial.
James
Heywood não tem muito tempo – ele corre contra o relógio.
O irmão mais novo, Stephen, sofre de esclerose lateral amiotrófica
(ELA), a doença que ficou famosa pelo físico Stephen
Hawking.
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Há cinco anos, a TV Globo contou a história emocionante
dos dois irmãos. James era empresário na Califórnia
e largou tudo para procurar uma cura para o irmão caçula.
Naquela época, Stephen ainda andava. Hoje, ele vive em uma
cadeira de rodas, respirando por aparelhos, e não pode brincar
com o filho Alex, de 4 anos. James criou uma fundação
de pesquisa e em três anos já testou 180 tratamentos
e remédios para a doença. Hoje ele investe tudo na pesquisa
com células-tronco retiradas de embriões. Acredita que
daí surgirá a cura e torce para que ela venha a tempo
de salvar o irmão. |
Em
Nova York, o neurologista Asa Abeliovich é um dos que estão
à frente na pesquisa para tratar o Mal de Parkinson. Ele
já consegue criar, em laboratório, neurônios
a partir de uma célula-tronco. É um neurônio
que produz dopamina e poderia ser usado para tratar pacientes com
Mal de Parkinson. Mas ainda não se consegue que esses neurônios
de laboratório criem as conexões entre eles que existem
no cérebro.
Segundo
Abeliovich, chegará um dia em que os cientistas estarão
prontos para dar o próximo passo e começar a testar
tratamentos, transplantando as células para os pacientes.
Mary,
mãe de Eli, se preocupa com o futuro. Ela acredita que a
pesquisa das células-tronco vai trazer a cura, ainda a tempo
de beneficiar o filho. Eli, com a firmeza de quem está decidido
a vencer, diz que acredita na promessa da ciência porque,
para ele, essa é a única esperança.
Coração
recuperado
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Muita vida pela frente! Vida recuperada, reconquistada. A dona de casa
Maria Aparecida Franco esteve no Instituto do Coração (Incor
), em São Paulo, só para mais um exame de rotina. Mas até
aquele dia chegar, estava difícil viver. "Eu estava cansadíssima,
já não era mais nada. Eu era enorme de rosto, de tudo. Estava
inchada e esperando o final. Eles diziam que não tinha outra chance
para mim", conta ela.
Nem os 16 comprimidos que tomava por dia ajudavam. Com várias artérias
entupidas, parte do coração de dona Maria Aparecida não
recebia sangue. Ela estava perdendo as forças, e os recursos da
medicina chegaram ao limite.
"Ela
tinha, por exemplo, uma artéria coronária totalmente obstruída.
Em situação convencional, ela receberia ponte de safena
onde fosse possível e aquela região ficaria descoberta,
não seria tratada", diz o cardiologista do Incor Luis Henrique
Gowdak.
Mas
já pode ser – e com células-tronco. O Incor é
um dos primeiros hospitais brasileiros a usá-las para recuperar
o coração de quem sofre infartos e anginas. Durante a cirurgia
convencional de ponte de safena, os médicos usam seringas para
retirar células-tronco da medula óssea na bacia do paciente.
Depois de separadas no laboratório, elas voltam para a sala de
operação e são injetadas direto no coração.
No órgão de dona Maria, o resultado é visível.
"No
momento pré-operatório, nós vimos várias áreas
onde não existia circulação sanguínea. E nós
temos um segmento pós-operatório, onde vemos praticamente
a normalização da circulação sanguínea”,
revela o cardiologista.
Sangue
correndo nas veias e coração batendo forte de novo. "Faço
caminhada, subo escada, limpo casa, lavo louça, faço comida,
durmo de bruços e comecei a amar de novo. O coração
está ótimo. Eu sinto vida, eu tenho paz, tenho alegria",
comemora Maria Aparecida.
Outra
Maria, no Rio de Janeiro, também escreveu o nome na história
da medicina. Foi depois de um derrame. "Ela não ia recuperar
o movimento das pernas, nem dos braços e não ia voltar a
falar. No dia seguinte eu já estava me preparando para arrumar
uma cadeira de rodas para ela, porque ela ia ter alta”, conta Márcio
da Costa, filho da paciente.
Antes
de ter alta, dona Maria da Pomacena virou notícia: foi a primeira
vítima de derrame no mundo a receber células-tronco no cérebro.
Elas também são tiradas da medula óssea da bacia
e injetadas por cateter até o local da lesão. Sete dias
depois, os exames mostravam brilho intenso na área que estava morta
no cérebro.
"A
interpretação que nós estamos fazendo é que
as células de medula óssea que foram injetadas através
da artéria cerebral média se depositaram preferencialmente
na região lesada e essas células estão tendo uma
atividade metabólica maior do que as do restante do cérebro",
explica a pesquisadora Rosália Mendez Otero, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os
médicos sabem que quem sofre um derrame pode até se recuperar
naturalmente. Mas a surpresa desta primeira experiência está
na rapidez e na ação intensa das células injetadas
no cérebro.
Novas
pesquisas serão feitas com pacientes que acabaram de sofrer lesão
grave na coluna, com outras vítimas de derrame, infarto e doenças
incuráveis, como a de Isaac. Há 11 dias ele foi o primeiro
brasileiro vítima de esclerose lateral amiotrófica (ELA)
a fazer o tratamento com células-tronco. Está vivo e com
esperança de que a doença pelo menos estacione, pare de
destruir os músculos.
"Todo
dia há pacientes para os quais nós olhamos e sentimos que
somos impotentes no sentido de oferecer alguma coisa útil para
eles. Então, essa também poderá ser uma nova etapa.
É possível que a gente tenha uma nova arma", comenta
Sérgio Oliveira, diretor da Divisão Cirúrgica do
Incor.
Fonte
:http://redeglobo6.globo.com/Globoreporter/
20/7/2006
00:11:00 - O
Dia
Paraplégico
volta a andar na Colômbia
Senador
deficiente há 24 anos passou por cirurgia com células-tronco
Rio - Paraplégico há 24 anos, o senador
colombiano Jairo Clopatofsky, 44, voltou a dar ontem os seus primeiros
passos ao lado do filho de oito meses. Há um ano, o político
se submeteu a um transplante de células-tronco na Clínica
Reina Sofía, em Bogotá. Jairo passou pela cirurgia de regeneração
medular com células-tronco retiradas da mucosa olfativa.
O
senador afirmou ontem que o sucesso do experimento pode abrir portas para
outras pessoas em situação semelhante. Jairo passou mais
da metade de sua vida em uma cadeira de rodas, depois que sofreu um acidente
de carro em 1982.
Apesar
de já ensaiar os primeiros passos, Jairo disse à Rádio
Caracol, da Colômbia, que resultados melhores devem aparecer nos
próximos dois anos. “Estou reaprendendo a andar com meu bebê.
Talvez em pouco tempo possamos andar os dois, de mãos dadas”,
disse o senador, que está usando botas especiais para ajudá-lo
a se manter de pé e facilitar o processo de recuperação.
Há
alguns meses, o parlamentar apresentou um projeto de lei que visa incluir
no sistema de saúde de seu país procedimentos de transplante
de células-tronco. A medida poderia ajudar os cerca de 800 mil
deficientes que vivem na Colômbia — a maioria deles vítimas
da violência e de acidentes.
A
técnica de regeneração medular com células-tronco
usada no procedimento no senador foi desenvolvida pelo neurologista português
Carlos Lima e consiste na retirada de células da mucosa olfativa
do paciente, localizada a um milímetro da massa encefálica.
Essas células têm alto poder de regeneração
das conexões perdidas. A pesquisa começou em 2001. Desde
então, pelo menos 45 pessoas, vítimas de lesão medular,
já foram submetidas à técnica, com bons resultados
— muitos deles recuperaram a sensibilidade perdida nos membros afetados.
Nos
EUA, o presidente George W. Bush vetou ontem o projeto de lei que ampliaria
os fundos públicos para pesquisas com células-tronco embrionárias.
“Este projeto apoiaria a destruição de vidas humanas
com a esperança de encontrar benefícios médicos para
outras e ultrapassa um limite moral que nossa sociedade deve respeitar”,
alegou. O desafio do Congresso agora é reunir votos suficientes
para anular o veto de Bush.
Notícia
dá esperança a jovem carioca
A
notícia do colombiano que voltou a andar depois de um ano, graças
a um transplante de células-tronco, encheu de esperança
Ana Lúcia Magalhães Lima. Ela é mãe da estudante
Camila
Magalhães Lima, 20 anos, tetraplégica desde
os 12, quando foi atingida por uma bala perdida em Vila Isabel. Camila
foi aprovada para fazer um transplante do mesmo tipo realizado no senador,
em Portugal, com o neurocirurgião Carlos Lima.
“Isso
só nos dá a certeza de que Deus não nos abandonou
e que estamos no caminho certo”, afirma a mãe.
A
cirurgia de Camila em Portugal já foi marcada para o dia 30 de
setembro. O advogado da família, João Tancredo, entrou com
recurso na 5ª Vara da Câmara Cível, onde aguarda julgamento.
O processo pede a liberação de 40 mil euros, quantia equivalente
ao pagamento da cirurgia e de passagens aéreas. “Só
espero que as autoridades não sejam desumanas e neguem à
Camila a única chance de cura que ela tem”, destaca Ana Lúcia.
COLUNAS
:: POR DENTRO DAS CÉLULAS
O Super-Homem poderia ter voltado a andar?
Colunista discute estratégias atuais da medicina para a recuperação
de lesões na coluna vertebral
O ator Christopher
Reeve discute o potencial da pesquisa sobre células-tronco para
a recuperação de lesões na coluna durante evento
no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 2003, um ano antes de sua
morte (imagens: Wikipedia).
Após uma queda de cavalo em 1995, o ator norte-americano Christopher
Reeve (1952-2004), mundialmente famoso ao encarnar nos cinemas o Super-Homem
- herói dos quadrinhos conhecido como o 'homem de aço' -,
perdeu todos os movimentos abaixo do pescoço e passou os últimos
anos de sua vida preso a uma cadeira de rodas, necessitando de auxílio
para se alimentar e respirar. Era uma prova emblemática da incapacidade
da medicina e do conhecimento científico atual para suplantar alguns
de seus maiores desafios.
Até sua morte prematura aos 52 anos em outubro de 2004, o ator
investiu sua fortuna e influência para apoiar a descoberta dos mecanismos
que governam a regeneração de lesões na coluna vertebral.
Será que, se ele estivesse vivo por mais alguns anos, seríamos
capazes de restituir sua capacidade motora?
Além de Reeve, estima-se que existam no mundo mais de 2 milhões
de pessoas que tenham perdido parte (paraplegia) ou a totalidade (tetraplegia)
dos movimentos corporais devido a traumas na coluna vertebral. Esse órgão
pode ser comparado a uma auto-estrada que conecta as informações
captadas nos meios interno e externo com aquelas geradas no sistema nervoso.
Essa comunicação se faz por meio de impulsos nervosos transmitidos
através das membranas plasmáticas de uma intrincada rede
de neurônios associados por prolongamentos celulares conhecidos
como axônios e dendritos.
Há alguns anos, pensava-se que os neurônios danificados seriam
incapazes de reorganizar sua estrutura celular. Acreditava-se que isso
estava associado ao fato de estas células serem extremamente especializadas
e dedicadas a coordenar o funcionamento de outros tipos celulares. A incapacidade
de regeneração seria, assim, um preço a se pagar
por essa elevada capacitação. Porém, posteriormente
verificou-se que os neurônios poderiam se recuperar, desde que não
estivessem muito lesados. Mas se isso era verdade, como explicar a paraplegia
e a tetraplegia?
Lesões
traumáticas e inflamação
O esquema mostra as regiões inervadas em cada porção
da coluna vertebral. essas regiões são afetadas em casos
de paraplegia (arte: Jim Lubin).
Essas paralisias devem-se em grande parte à inflamação
que se segue após lesões traumáticas na coluna vertebral.
A inflamação, um mecanismo protetor contra lesões,
leva à liberação de uma série de compostos
químicos e à ativação de vários tipos
celulares que dificultam a recuperação do delicado equilíbrio
anteriormente observado na região afetada.
Na inflamação estão envolvidas as células
da glia, que atuam como 'babás' dos neurônios, dando a eles
alimentação e proteção. Quando ocorrem danos
irrecuperáveis nos axônios e dendritos - após um trauma
cervical causado por uma queda de cavalo, por exemplo -, os neurônios
afetados ativam o processo de morte programada ou apoptose.
Posteriormente, as células da glia eliminam os neurônios
e seus prolongamentos danificados e deslocam-se para as regiões
onde estes estavam anteriormente. Desta forma, quando os axônios
e dendritos são seccionados, os neurônios, ao procurarem
estender novamente seus dendritos e axônios, fazem-no aleatoriamente,
tendo assim uma probabilidade reduzida de encontrarem novamente os caminhos
e alvos adequados.
Após um traumatismo, neurônios sobreviventes que tentam estender
novamente seus prolongamentos no local da lesão terão também
de enfrentar outros desafios: a região lesada encontra-se repleta
de sinais inibitórios representados por restos celulares, radicais
livres e outros compostos tóxicos liberados durante a cicatrização,
e há vários "inimigos" à espreita (células
inflamatórias), prontos para atacar esses prolongamentos celulares.
Extensão dos prolongamentos celulares
As estratégias atuais para se procurar combater os danos neuronais
causados por traumas na coluna cerebral buscam proporcionar aos neurônios
as condições ideais para sua recuperação e
extensão de seus prolongamentos celulares, enquanto se tenta minimizar
os danos causados pela reação inflamatória associada
à cicatrização dessas lesões. Algumas drogas
em fase de teste estão sendo utilizadas para se tentar proteger
os neurônios dos efeitos nocivos associados à inflamação.
Em casos de lesões antigas, tem se tentado transplantar para o
local afetado células-tronco capazes de se diferenciarem em células
da glia ou neurônios, suprindo novamente essa região com
os tipos celulares necessários capazes de promover sua recuperação
funcional. Outra possibilidade que está sendo testada é
a introdução de células gliais adultas capazes de
promover as condições ideais para um desenvolvimento adequado
dos neurônios lesionados.
Se essas estratégias forem bem sucedidas, apesar de não
podermos mais ver Christopher Reeve andando, quem sabe possamos ter esperanças
de ver, daqui a alguns anos, Herbert Vianna tocando de pé sua guitarra
em um show dos Paralamas do Sucesso. A medicina ainda está bastante
distante dessa realidade, mas ela é movida justamente pela busca
de superar desafios.
Jerry Carvalho Borges
Colunista da CH On-line
28/07/2006
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